Segue um texto que escrevi para a aula de contos que faço. O exercício era pegar três livros e retirar frases aleatórias deles e escrever um conto que fizesse sentido com elas. Acho que mandei bem nesse… Ou liberaram gás do riso para os colegas de aula… Ou eles estão usando drogas e não estão me chamando.
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De acordo com as Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter – o único guia sobre o futuro inteiramente confiável na Terra – o mundo vai acabar num sábado.
No próximo sábado, na verdade.
Pouco antes do jantar.
Obviamente que Carl, o último descendente de Agnes – pelo menos o último relativamente são -, já sabia disso. Ele fez planos para o fim do mundo e considerava ilógico o resto da população mundial não fazer o mesmo. A família Nutter sempre foi extremamente cautelosa quando o assunto era o Fim, por isso criaram um livro de receitas: “Como preparar o melhor chá das cinco antes do fim do mundo”. O livro passou de pai para filho – exceto quando foi perdido durante a Queda da Bastilha (prontamente substituído por uma cópia quase fiel, que só não era completamente fiel, pois trocava os antigos bolinhos-de-chuva por biscoitos amanteigados no acompanhamento. Uma mudança que, de fato, não significava muita coisa. A não ser que você odiasse biscoitos amanteigados).
Outra coisa que Carl considerava ilógico era como as pessoas encaravam o passado, o presente e o futuro. Se o passado é visível e o futuro escondido, diz Carl, isso significa que você está virado para o lado errado. Tudo o que vive atravessa a vida de trás para frente. Uma idéia polêmica, pois além das pessoas não encararem mudanças de pensamento muito bem, nunca foi um papo muito cativante durante o happy-hour da empresa de publicidade na qual Carl trabalhava.
Era quarta-feira e Carl tentava achar uma maneira minimamente inteligível de convidar Alexia, a recepcionista da agência, para lhe fazer companhia no chá antes do Fim. Quando o expediente acabou, Carl e seus colegas decidiram ir a um bar das redondezas e calhou de Alexia comparecer ao evento etílico.
Copos e mais copos mais tarde, Carl estava começando a falar besteiras e sabia disso. A mistura das melhores cervejas de Exuberance, Hall e Woodhouse era algo que impunha respeito, mas um dos seus primeiros efeitos era fazer com que você parasse de respeitar qualquer coisa. No ápice de sua embriaguez, Carl segurou a mão de Alexia, ajoelhou-se- ele não tinha certeza do porque estar fazendo aquilo, simplesmente lhe parecia uma boa idéia na hora – e quando foi pedir para que a recepcionista o acompanhasse no chá do Fim, apagou.
A maioria das espécies tem uma evolução própria, criando-a conforme prosseguem, como a Natureza planejou. Isso é muito natural, orgânico e em sintonia com os ciclos misteriosos do cosmo, que acredita que não há nada como milhões de anos de tentativa e erro extremamente frustrantes para que a espécie adquira fibra moral e, em alguns casos, coluna vertebral. No caso da raça humana, estudiosos pangalácticos ainda não chegaram a um consenso, mas tendem a afirmar que foi uma péssima idéia o homem ter descido das árvores milhões de anos atrás, outros, mais realistas, acham que o erro começou em quererem subir nas árvores. Carl é um dos poucos humanos que tem certeza de que sua linha genealógica era uma que nem deveria ter sido criada. Mais por uma questão logística do que metafísica.
No dia seguinte, ele acordou em casa com Alexia dormindo ao seu lado. Ela estava vestida e ele nu. Possuía alguns flashbacks da noite passada, que insistiam em se misturar com imagens do Poderoso Chefão III. O pior é que ele nem gostava dessa versão. Ao tentar levantar para se vestir, ela acordou:
- Sabia que, um dos maiores benfeitores de todas as formas de vida foi um homem que não conseguia se concentrar em qualquer trabalho que estivesse fazendo?
- Desculpe, não entendi.
- Por exemplo, o ornitorrinco. Não tem como alguém cuidadoso criar um bicho daqueles.
- Ah, sim.
Carl estava confuso, só queria ir trabalhar – na realidade ele queria diversas coisas, mas todas as outras estavam temporariamente suspensas devido ao Fim -, ele levantou segurando o lençol, pegou algumas roupas jogadas no chão e correu para o banheiro.
As coisas que realmente mudam o mundo, segundo a teoria do Caos, são as coisas pequenas. Uma borboleta bata as asas na selva amazônica, e subseqüentemente uma tormenta ataca metade da Europa. E a ida de Carl ao banheiro foi uma dessas coisas. Se ele tivesse esquecido da descarga só dessa vez, o conteúdo da privada teria permanecido em sua casa e conseqüentemente não teria provocado o transbordamento do Oceano Pacífico, fazendo com que a órbita da Terra saísse do lugar e se chocasse contra um meteoro que passaria por ali bem na hora. Olhando pelo lado otimista, todos os habitantes do mundo acabariam dando a sua vida para salvar uma lua de Saturno, que agregava um ótimo visual na noite do planeta, sem falar que aumentava a especulação imobiliária da região. Olhando pelo lado da jurisprudência intergaláctica, o sacrifício da Terra seria considerado um clássico anti-crime. De acordo com a Enciclopédia Tuskak de Planetas, no verbete “Terra” lê-se: “praticamente inofensiva, com um povo que era chegado a um sacrificiozinho”.
Carl acabou conseguindo convencer Alexia de passar o chá do Fim com ele e que, apesar da inevitabilidade, precisavam ir trabalhar. A quinta-feira foi monótona. A sexta veio junto com a chatice de comprar os ingredientes para o chá, as fila na vendinha que ficava na esquina da casa de Carl demonstrava que em algum ponto do inconsciente humano, todos sabiam que o mundo acabaria.
O sábado nasceu como qualquer outro dia que parece perfeito para o mundo acabar. Alexia chegou pouco após as 14h, mas como o fim ainda estava relativamente longe de acontecer, os dois tiveram de conversar sobre o clima, que é o tipo de assunto tão descabido que foi banido da estrela Plestora, com pena de morte àqueles que citassem qualquer coisa sobre o respeito, mesmo que fosse um simples “parece que vai chover hoje, heim?”. Carl e Alexia sabiam que o mundo estava acabando, mas aquilo estava monótono demais. Decidiram passar no bar mais próximo para animar um pouco as coisas antes do chá do Fim.
Coisas peculiares começaram a acontecer, como o rabino local correndo em círculos atrás de um candelabro animado. O frentista tentava domar as mangueiras de gasolina e as de álcool que insistiam em discutir o valor do barril de petróleo. Então o casal viu, descendo a rua estreita vinham quatro motocicletas. Elas dispararam na direção deles, perturbando um pavão que atravessou apressado a pista num arco nervoso de vermelho e verde. Ao pararem as motos, Carl notou o brasão na jaquetas dos cavalheiros (”Hell’s Angels”) e ficou arrepiado.
O SENHOR SABERIA NOS INFORMAR A DIREÇÃO DO APOCALIPSE MAIS PRÓXIMO? – perguntou o único dos motoqueiros que não tirou o capacete ao parar, sua voz parecia estar estranhamente em todos os lugares ao mesmo tempo.
- Hm, eu não entendo muito sobre esse tipo de coisa, senhor, mas o Apocalipse não é algo geral? Parecido com a adolescência? Que você não sabe onde começa, mas tem certeza onde acaba? – falou Carl.
SIMPLÓRIO HUMANO, POR ISSO QUE ODEIO PARAR PARA PEDIR INFORMAÇÕES. – com isso os quatro se foram, em direção contrária a do casal.
Carl e Alexia acabaram por desistir do bar quando assistiram o dono do recinto lutando contra sua geladeira que tentava o comer. Voltaram para casa e decidiram começar os preparativos para o chá.
Por volta das 17h30 o mundo começou a acabar, a gravidade do cometa começou a tirar todos do chão e por mais que Carl já estivesse ciente do fato, a situação não deixou de impressioná-lo um pouco. E foi assim, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, o mundo acabou. Não sem antes o chá quente queimar a língua de Alexia que soltou um rápido “que merda”. A expressão acabou sendo conhecida como a última frase importante dita por um terráqueo e por isso, o que resumia toda a vida do planeta.
Nota do Autor: Para ser um anti-crime, o ato deve constituir afronta e/ou humilhação à vítima, tal qual invadir e redecorar, oferecer com constrangimento (como geralmente ocorre quando as pessoas recebem aposentadoria) e deschantagem (quando se ameaça revelar para os inimigos de um mafioso que ele faz doações secretas a instituições de caridade, por exemplo). O anti-crime é uma idéia que não chegou exatamente a vingar.
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