Mais um conto para a aula de amanhã. A peculiaridade desse é que eu tive de pesquisar e encaixar dez palavras que eu não conhecia no meio do texto, o que foi ruim. Deixou a narrativa meio quebrada, sei lá. Vamo que vamo.
____________________________________________________________________________________________
Testes realizados na Universidade de Nova Yorque, no Maranhão, mostram que a possibilidade de um ser humano se conscientizar do próprio ridículo que está passando logo quando acorda e tenta realizar ações básicas para a manutenção de sua própria existência são nulas. Ou melhor dizendo, quase nulas, afinal, ainda não existe nenhum tipo de publicação literária e/ou programa televisivo que mostre com entusiasmo messiânico o pós-sono das celebridades do mundo, isso mostra que em algum ponto do subconsciente coletivo, o ser humano sabe que é uma situação ridícula. Na realidade, a ausência de tal publicação literária e/ou programa televisivo dessa “iguaria” comportamental se deve unicamente ao fato de ninguém conhecer os estudos da Universidade de Nova Yorque, no Maranhão. Ainda mais real é o fato de que poucas pessoas acreditam na existência dessa instituição de ensino, isso se deve, principalmente, à peculiaridade de que a Universidade de Nova Yorque, no Maranhão, só existe na cabeça de João das Favas. Esta não é a história de João das Favas.
Esta é a história de Ca-carla Carolina. Sim, seu pai era gago. E sim, o escrivão que registrou Ca-carla era um traquinas.
Em uma bela manhã de segunda-feira – algo realmente memorável, já que há milênios o Criador “institucionalizou” a segunda-feira como dia oficial da má-vontade e mal-humor – Ca-carla levantou sonolenta, com o mundo derretendo sob seus pés. Após alguns passos ela parou, sentiu seu crânio sendo pressionado para trás e sua mandíbula sendo puxada para baixo com a força de mil dromedários. Boceja. Como um zumbi, com sânies estourando, em busca de uma massa encefálica alheia ao mundo morto-vivo que regouga a sua volta, ela procura o banheiro.
Pugnaz às suas pálpebras que continuaram a lhe informar que não, ainda não estava acordada. Ela seguiu em direção a primeira fonte de luminosidade que enxergou. Esbarra na cama, “eu podia jurar que ela ficava do outro lado do quarto”, bate na escrivaninha, “tá, isso eu sabia que ficava aí, só estou me certificando”, tropeça no chinelo virado com a sola para cima, “minha mãe sempre arrazoou que solas para cima têm uma estranha mania de causar mortes matriarcais”. Tergiversa o grito doentio de seu cérebro que insiste em lhe conduzir para a cama, desequilibra e sorri de sua falta de coordenação matutina.
Ca-carla se mantém em direção à luz, com a certeza de ser a lâmpada do corredor acesa. Cada vez mais perto. Mais perto. Antes de chegar ao objetivo, Ca-carla ainda esbarra na mesinha de cabeceira, “estranho, poderia jurar que isso não ficava no caminho do corredor”, e o mundo se torna mais claro. E mais alto.
Seu corpo se dobra suavemente, um balé suave e doido por sobre o meão da janela do quarto. Ca-carla mora no 17º andar de um prédio com 17 andares. Ela queria ficar no primeiro, mas um senhor chamado Concomitas Alazão e sua corcunda chamada Dóris foram enfáticos, e bem imagéticos, ao proclamarem (é impressionante o quanto uma corcunda consegue falar sem ter boca) que precisavam ficar o mais perto do térreo possível.
O mundo acelerou num conciliábulo maluco. Ela não estava entendendo direito como conseguira vencer a barreira da gravidade, que sempre fora bastante intransigente quanto deixar que alguém se desgrudasse do chão. Ca-carla ainda tentava acordar quando uma carga enorme de adrenalina secretada por suas glândulas supra-renais atingiu seu cérebro. Ela acordou e rapidamente atinou a situação. Estava caindo. Caindo de sua janela no 17º andar. Viu o chão se aproximar na velocidade de uma locomotiva realmente tensionada a passar por qualquer coisa que ficasse em seu caminho.
Mas ela tinha apenas 33 anos. Muita coisa para viver, muitas pessoas para conhecer, drogas para se fazer utente, bebidas para beber, fraldas geriátricas para vestir e homens para transar, quem sabe mulheres também. Ela ia morrer e na realidade isso não a alarmou muito.
Pensou no que deixaria para trás. “Não muita coisa”, só o Pitaco, o papagaio que só falava, com perfeição boris-casoyca, o horário do mundo. Era um pé-nos-ovários de Ca-carla quando chegava o horário de verão. Pitaco se perdia e começava a reajustar todos os fusos horários mundiais. Demorava 26 horas para ele fazer isso. “Tadinho do Pitaco, ninguém vai querer um papalógio”, pensou ternamente.
Ca-carla passou rapidamente pelo apartamento de Dona D’Angela, uma senhora virago que fazia incríveis pretzels com cobertura de chocolate. Passou pelo apartamento do Plínio, marceneiro e estuprador quando a situação o permitia. Fez uma rápida passada pelo 7º andar, onde Toninho, um estudioso garoto de 8 anos viciado em desenhos animados antigos, lhe deu um “bom-dia” expresso e continuou brincando com seus carrinhos.
Ela olhou de novo para o chão, que agora parecia até amistoso. Pensou na vida: tinha sido boa, se divertiu na infância com suas primas em Águas de Lindóia, se divertiu ainda mais com seus primos nos quartos de Águas de Lindóia. No colégio nunca foi nenhuma CDF, acabou trocando garrafas de cerveja por colas nas provas – seu pai era dono de um promissor boteco na frente da escola de Ca-carla. Na faculdade… Bem, para ela, a faculdade foi a conta de bar mais cara que ela já havia pagado. E agora isso, a vida. Bem, mais especificamente a morte. Olhando para o chão ela se perguntou pela primeira vez para o que servia a vida. Ca-carla nunca sofreu do banzo que muitas pessoa têm, também nunca foi introspectiva o suficiente para pensar no Sentido, mas agora, próximo do fim, ela até que estava curiosa. Será que alguém ou alguma coisa lhe daria as respostas após a morte? Existia alguma vida após a morte? “Calma, isso ta errado, morte implica no término da vida, logo, não há vida após a vida”. Bem, uma questão a menos.
Então algo a iluminou, na realidade iluminou seus pensamentos. Ela entendeu! Entendeu porque as pessoas sofriam, sorriam, choravam, tomavam banho e, acima de tudo, o porque bastante pimenta sempre parecia uma boa idéia e depois se transformava em caretas sobre o vaso sanitário. Ela precisava avisar a todos! Ela sabia o sentid…
Dicionário rápido:
-Conciliábulo – reunião secreta com fins malévolos;
-Banzo – nostalgia mortal dos negros que eram escravizados e exilados de sua terra natal;
-Arrazoar – expor ou defender alegando razões 2. censurar;
-Meão – intermediário, mediano, médio;
-Pugnaz – dado às pugnas, lutador;
-Regougar – gritar;
-Sânie – pus formado em chaga não curada;
-Tergiversar – procurar rodeios, evasivas;
-Utente – usuário;
-Virago – mulher de modos masculinizados.
[windows media player: ryan birngham - southside of heaven]


Eu estava lendo, e fui selecionando as palavras que eu não sabia o que significava.
Não selecionei arrazoar.
Caio 10 x 9 Caká
=P
Morra feliz, você escreveu um texto em que colocou que a faculdade foi a conta de bar mais cara que alguém já pagou! hehehe
Bom texto, mas o anterior é melhor!
Beijos
Te amo
O James é legal… Vou usar Sânie em algum lugar!
Té!
To adorando essas lições de casa do seu curso. Aos meus olhos está tirando 10!
PS: acho que temos a mesma deficiencia nas mesmas palavras, nao sabia exatamente as mesmas que vc selecionou ehehhee.
keep writing!
…o.
Ei, onde você faz curso de contos?
Que interessante!