Amigos. Tai um gênero difícil de definir. São pessoas que amamos, os fazemos nossa família, não obstantes nossos amantes algumas vezes. Mas eles estão ali. Sempre.
Eu não tenho medo de brigar com meus amigos. Brigas simplesmente acontecem. Não tenho medo de magoar amigos, ou de que eles me magoem, são amigos e humanos, isso simplesmente acontece. Agora eu realmente tenho medo de esquecê-los. Ou que eles me esqueçam.
O principal acontece com amigos que fiz em Atibaia. Foram pessoas extremamente importantes. A maioria deles eu levarei para a vida inteira. Mas há uma em especial: Eve, o Vi.
A Vi foi engraçado de conhecer, amiga de amiga. Ainda era época de ICQ. Passávamos horas conversando. Qualquer babaquice, ou assunto sério. Demoramos um certo tempo para realmente sairmos juntos. E na realidade nem foi uma saída propriamente dita. Ela ia correr e falou para eu encontrá-la no caminho.
Engraçado como Atibaia, pequena do jeito que é, não me mostrou a Vi anos antes. A enxerguei de longe, correndo subindo a Avenida Santana. Ela foi ficando cada vez mais nítida e quando chegou perto o suficiente, ela não parou, simplesmente correu na minha direção e me abraçou. Forte. Apertado. E sincero.
Fiquei meio confuso. Ta certo, conversamos muito pelo ICQ antes, mas eu nunca tinha a encontrado pessoalmente e ainda assim foi o melhor abraço. Toda vez que esbarro com ela no MSN, sou obrigado a lembrar disso.
Semanas depois conheci a casa dela e a maravilhosa torta de morango da mãe dela. Engraçado era que pessoalmente nós não conversávamos tanto, mas era bom. Ela até me deu carona para casa um dia. Eu achava demais.
Um dia ela chegou em casa. Estava acontecendo alguma festa ou reunião de galera na minha casa, não lembro direito. Abri a porta e tomei um susto. A Vi nunca ia nas festas que eu a chamava. Ela tava lá, com um sorrisão, o sorriso dela. Acho que a Brunella tava junto né, Vi?
“Então, preciso te dar uma coisa”, ela falou. Foi estranho. Eu dei uma risada e senti um frio na barriga. Ela voltou até o carro é pegou dois livros e um hipopótamo de pelúcia (o Newton). Os livros eram: “Assassinato no Expresso do Oriente”, da Agatha Christie e “Histórias Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe, ambos capas duras e o do Poe era uma versão mais antiga. Lindos. Eu não sabia o que falar.
“Você sempre me falou deles, acho que você tem que ficar com eles”, como assim? Eu não tava entendendo. “Estou indo pro Canadá com a minha mãe no mês que vem, não sei se volto”. Ela não ia voltar, não sei, eu simplesmente sabia que não ia ser algo passageiro. Eu corri de volta pra dentro de casa, peguei um livro do Neruda e uma caneta estranha com umas penugens em volta. Ela deu o sorrisão de novo e abraçou o abraço dela.
Semanas depois eu e mais outros amigos dela combinamos uma despedida. Eu tava meio de bicão, afinal, eu era amigo dela e não dos outros, mas fui assim mesmo. Fomos para um bar na Estância. Eu era um duro e não tinha dinheiro nem para uma água. Fiquei sentado no meio da mesa enquanto as pessoas conversavam animadamente sobre assuntos que eu não fazia a menor idéia.
Uma determinada hora a vi levantando da mesa e indo para um outro canto com um rapaz. Era O Rapaz, que ela sempre me falava e eu nunca registrei o nome direito. Minutos depois ela começou a chorar convulsivamente. Eu queria ir até lá, mas aquela multidão por perto me intimidou. Tenho raiva de eu não ter ido e acho que nunca te contei isso, Vi. Mas nos meus 15, ou 16 ou 17 anos, eu tinha medo das pessoas. Desculpe.
Um tempo depois, mais lágrimas e eu decidi ir embora. Ela tinha parado de chorar um pouco, fui perto dei um beijo na bochecha esquerda dela e a abracei, tentei fazer o mesmo jeito que ela, mas acho que a tentativa foi medíocre. Dei um “tchau, vou te visitar” virei as costas e voltei o mais rápido possível para casa. Eu achei que ia chorar, mas, para variar, eu não consegui. Hoje eu sei que deveria ter ficado mais, abraçado mais e conversado mais, especialmente naquele dia.
Dias se passaram e me chamaram para levá-la para o aeroporto. Eu queria ir, falei que iria, mas não fui. Não sei por quê. Medo, sei lá. Acho que medo sim, eu morria de medo da Vi esquecer-se de mim, então preferi deixar pra lá.
Hoje em dia raramente a distância faz com que as pessoas se afastem ao ponto do desconhecido. Continuamos conversando por MSN, até chegamos a trocar algumas cartas, uma coisa mais romântica sabe? Guardei as fotos e a folha símbolo do Canadá, junto com o livro “That’s How You Play the Game” (demorei meses para acabar de lê-lo, confesso, meu inglês estava ainda mais capenga do que é hoje).
Logo nos meses após sua ida, de repente, todas as pessoas populares de Atibaia conversavam com a Vi. Mandavam cartões e algumas até chegaram a visitá-la. Foi aí que eu tive certeza que ela esqueceria de mim. As cartas foram parando (minha culpa), depois os telefonemas e então as conversas pelo MSN se tornaram raras. Ela tinha uma outra vida. Tudo bem, eu também tinha. Mas o que dói de verdade foi sempre ter prometido visitá-la, mas nunca consegui. Acho que é mais minha culpa do que da vida mesmo. Não sei.
Mas sabe o mais engraçado? Enquanto ela tem toda uma vida canadense, seus problemas, todos os outros amigos, admiradores de suas fotos (de fato, lindas), ela ainda…
Ela ainda…
Lembra…
De mim…
… e dessa caneta amarela (o Eistein).
Eu devia ter fala “te amo” para ela mais vezes quando nos vimos.
[windows media player: sondre lerche - you know so well]





Engraçado que eu entendi perfeitamente o “Acho que é mais minha culpa do que da vida mesmo.”, já senti isso mtas vezes na minha vida.
Não sei porque, mas adorei ler isso, acho que é porque você nunca tinha me contado. Bom saber mais sobre sua vida.
Espero que um dia eu chegue aqui e tenha um post sobre mim também (e que de preferência eu nao tenha que ter ido embora).
Morro de medo de esquecer meus amigos, e que eles me esqueçam, mas isso eventualmente acontece, não os que sao mais importante, mas acontece com alguns.
Mas eu sei que você nao vai sumir da minha vida, mesmo que a gente fique meses sem se ver, ou mesmo que se fale pouco, porque você tem um papel maravilhoso na minha vida, esteve do meu lado em momentos fodas. Nunca vou esquecer do dia em que meu vô morreu e você me ligou na hora.
É Cainho, tem gente que a gente não esquece.
rs
Te amo, tonto.
caio e seus textos sensacionais…a Vi deve estar honrada e emocionada!
bjos bjos
engraçado eu tenho medo que vc me esqueça!!
Ah, quem diria! o cara engraçado do curso de conto que fala rápido me deixou com um nó na garganta! incrível essa vida mesmo…