Sempre que vou para a casa de minha mãe e irmã em Guararapes, espalho aos quatro ventos que é simplesmente sensacional poder visitá-las, algo que só faço a cada 6 meses. Além da companhia de ambas, minha mãe tem uma ótima mania de encher a geladeira de cerveja e rum para me receber. É incrível simplesmente abrir a geladeira, pegar uma Brahma (ela gosta, mas eu prefiro Skol…) e beber enquanto assisto alguma coisa na TV. Sem correria, apenas a geladeira e eu.
Minha tia, irmã de minha mãe, foi diagnosticada com câncer de intestino há três meses. Em nenhum ínfimo momento desde que a palavra “câncer” foi inserida em minhas conversas com minha mãe a tia mostrou melhoras. “Ladeira abaixo”, citando minha mãe.
Sabe, nunca fui um exemplo familiar. Evitava com esforço hercúleo qualquer reunião familiar, relapso é um adjetivo fraco, eu sou um verdadeiro não-parente . Não é birra, é apenas minha natureza de não querer estar por perto da família que fica além dos laços de pai, mãe e irmã.
Essa tia sempre foi a mais efusiva com os sobrinhos. Ao nos ver sempre arreganhava um sorriso enorme e abraçava forte, tempo para transformar tudo em climão. Pedia beijos demais. Ela nunca casou e nem teve filhos, talvez seja a explicação para o comportamento. Talvez não.
De três meses para cá tudo mudou. Ela emagreceu vertiginosamente, seu humor murchou, seu corpo foi engolido pelo universo. Definhou.
Tenho de admitir que em nenhum momento, nem ao menos meio segundo de lapso de compaixão transpareceu em minha mente. Tudo que se passava e tudo que sentia era pela dor de minha mãe. Sua irmã morria, ninguém podia fazer nada por isso. A entendia, sentia sua dor, mas a dor de minha tia, de perdê-la, nunca passou por perto. Escutava cada reclamação e afagava cada lágrima de minha mãe com a mais pura austeridade canônica. A tia era minha, a vida não, tampouco a morte. Muito menos a morte.
Três meses. Tento imaginar como deve ter sido para minha tia ver sua vida esvair, ser sugada de seus ossos sem poder lutar por ela, sem ter o menor direito de reclamar para alguém. Faço esse exercício criativo na tentativa de extrair qualquer sentimento que não indiferença. Gostaria de chorar pelo menos em um enterro de alguém de minha família. Não sou durão, nem me faço de “o macho-alfa”, simplesmente não entra em minha cabeça ter de chorar a morte de alguém só por nossa casual ligação sanguínea.
Ontem, às 20h eu entrei no quarto da terceira internação de minha tia. Eu não a via há um mês e pouco. Só atinei que era ela pois era a única no quarto e minha mãe e irmã estavam a sua volta. Se eu a tivesse visto na rua com aquela aparência, teria passado batido, sem nem mesmo cogitar conhecer.
- Oi, tia. Como está? – Ah, as cortesias do bom-costume social…
- Tudo bem, meu filho. E você?
- Tudo sim. – sorri o melhor que pude. Como sempre fiz.
- Nossa, Cida. Ele engordou. Prefiro assim – disse baixinho para minha mãe.
Sorri e abanei a cabeça. Eu não reconhecia aquele corpo. Sequer me incomodava. Entretanto, era estranho ver a morte acontecendo, bem diante de mim. Já vi mortos antes, já vi pessoas morrendo instantaneamente com tiros, síncopes. Mas nunca havia presenciado a morte tricotando, desfiando a vida de alguém com tanta paciência fatal. Vai acontecer, estava nos olhos de minha tia.
Minha mãe sabe, minha irmã sabe, mas os outros quatro irmãos de minha tia e os sobrinhos insistem em esperança, em luta. Bobagem. Ela já sabe do seu fim, a Morte e sua gadanha descansam tranquilamente na cama ao lado, esperam pacientemente e sorriem para as lágrimas inconformadas dos outros. As lágrimas de minha mãe são pela irmã que não terá mais ao seu lado, que a viu crescer que a ajudou em tantos momentos difíceis, as de minha mãe são pela ausência presente e não pela impotência que os outros reclamam. Compartilho da dor de minha mãe, não imagino o que deva ser assistir minha irmã sendo colocada de lado lentamente.
Minha tia, antes de eu ir embora, segurou minha mão e falou que estava feliz que eu passaria o Natal ao seu lado. Eu falei um “tudo bem” sorrindo. O último Natal, disseram seus olhos baços. Ela não olhava para mim, olhava através de mim. Para o passado? Para algum outro lugar? Nem me incomodei de perguntar, isso é dela e não meu. Soltei seus dedos fracos e alheios. Fui para fora do hospital, ascendi um cigarro e olhei para o céu límpido que só o interior de São Paulo tem.
Nenhuma estrela chorou por minha tia, seria bobagem. Não fiz pedidos, não rezei e nem torci por sua melhora ou morte digna. Todas as mortes são iguais. O especialista em guerras do Estadão uma vez me contou, durante uma entrevista: “sabe o que aprendi com todos os meus anos de batalhas? Não importa quantos tiros, quantos amigos, quantos familiares ou para qual lado uma pessoa lute. No final todos morremos sozinhos”. E completamente iguais, não há dignidade, não me ocorre um “além”, apenas um fim. Esse é o fim de minha tia.
Esse ano minha mãe não encheu a geladeira de cerveja e nem de rum.
[itunes da minha irmã: lifehouse - undone]


texto lindo, que bom que vc passará o natal por lá!
Acho que, acima de tudo, deve-se pensar que uma hora ou outra poderá ser eu, ou você naquela cama. E, sinceramente, não gostaria de ter pessoas ao meu redor que não se importassem de verdade comigo.
Prefiro a morte solitária à pena, o carinho incondicional do quê o descaso. E como todos morreremos sozinhos, prefiro ter ao menos quem amo, e me ama, a meu lado, só pra ter certeza que não sou apenas mais um corpo caído no campo de batalha. Mas que houve alguém que se importou em tentar me resgatar, ferido no chão, mesmo sabendo que a morte me acometeria minutos depois…
Egoísmo e insensibilidade andam juntos… e brahma é muito melhor do que skol, não cabe nem comparação. Skol é água pura.
Abraço.
clap!
Caio!
Puxa, lindo e triste texto. Sei exatamente o que é isso. Passei por isso também com a irmã da minha mãe! O importante é estar ai perto delas.
E, seriedade à parte, a mãe aqui tbém te deu Brahma quando vc veio visitá-la!
Se Cuida! E Bom Natal!
Beijão
Iêda