Ela acordou com um gosto estranho na boca. Rançoso? Não. Algo mais parecido com cheiro de geladeira, um leve toque de desespero e uma pitada de rapidez. Algo metálico adocicado também estava ali. Era assim que ela enxergava a vida: ligeira e meio estragada. Guardada embaixo da língua. Algo que só aparece depois de algumas doses de tequila barata vendida no bar do Tonhão, o Desdentado.
Quando sentou percebeu que estava no sofá de casa, com um pé do salto calçado e o outro sumido. Deve ter ficado na rua. Ela não lembrava muito da noite passada, era um monte de imagens desconexas, gargalhadas albarroadas, alegria escondida no fundo de cada copo. Ela procurou em todos.
Foi até o banheiro. Luz amarelada, molhadeza por todo canto. Ela queria água e alguma bala para disfarçar a língua tresloucada de álcool.
Há muito tempo que ela não vivia. Desmorria o dia inteiro para poder dar um passo mais perto da gadanha. Como foi que tudo acabou naquilo? No engavetamento diário das não-horas, dos não-minutos? Ela estudou em bons colégios, recebeu todo o amor que sua família achava burocraticamente correto. Medido na ampola dos sorrisos falsos e abraços frouxos que só pais bem-apessoados sabem dar.
Olhou-se no espelho e viu que se transformou no rascunho do que poderia ser algo lustroso. Lavou o rosto e encheu a boca d’água. Gargarejou e cuspiu. Sangue. Ela sorriu uma melancolia comedida. Algo duro flutuou e bateu no céu da boca. Um pedaço de dente caiu na pia. Lá se vão os milhares gastados nos dentistas da cidade, que sempre elogiaram seu sorriso.
Nesses momentos pós-etílicos ela sempre pensava no abismo. Todo mundo sempre recitou a escuridão da profundidade. Para ela o abismo sempre foi duma brancura ensurdecedora, dum silêncio cheiroso. Piscou. Teve um vislumbre perfeito. Parou. Empalideceu e fechou a porta do banheiro. O rangido a tirou do foco por alguns segundos. Precisava chamar alguém para concertar aquela joça, precisava colocar uma maçaneta. Voltou-se para o espelho e não reconheceu. Uma mulher ruiva a olhava de volta, a condenava. Escorria um filete de sangue pelo canto direito da boca, o rosto estava inchado de tanta bebida. Os olhos eram azuis e denunciadores. O reflexo queria vingança, queria uma vendetta sanguinolenta e dolorosa. Piscou. A imagem sumiu. Mais um vislumbre de algo…
Ela começou a tremer. Às vezes, quando você olha o abismo, ele olha de volta para você. Alguém já tinha lhe falado aquilo, ou lera em algum lugar. Piscou. Agora quase caiu no chão gelado. Um coro de mil vozes alfinetou seus tímpanos. Gritos, choros, lamentos e risadas. Ela queria sair do banheiro, mas a falta de maçaneta não ajudava. Piscou. Só uma voz a seguiu de volta para a superfície da sanidade. “Sim!”. A cabeça ficou pesada. Ela arranhou a porta e quebrou duas unhas enquanto batia na parede ao lado e escorregava para longe do céu. Piscou. “Sim!”, mais alto em sua cabeça. Caiu e começou a tremer. Sentiu um frio calorento insuportável, queria um cobertor de gelo, um ventilador de fogo.
Fechou os olhos.
Ali estava o abismo, em frente aos seus olhos fechados, bailando para eles. Mas como ela podia saber? O que aconteceu com o mundo à sua volta? Ela sentia o chão gelado, mas de todo o resto nada restava. Ela não conseguia abrir os olhos e nem se mexer, com medo de confirmar que tudo havia sumido, que somente ela e a geladura do solo tinham sobrado. Ficou parada, imóvel, somente respirava, maravilhando-se com cada golfada de ar que tomava, pois para ela nem o ar seria capaz de resistir à atração do infinito, seria sugado para dentro dele também, permanecendo nos pulmões da escuridão. E assim ficou.
Ela escutou os gritos da zeladora do prédio, mas achava que era o abismo tentando enganá-la. O abismo a queria para sua consorte, queria amá-la. Ela não se deixaria levar. A família a encheu de abraços e beijos, ela os negou. A família começou a odiá-la por não falar e não abrir os olhos. Ela não se deixaria enganar pelo infinito sedutor. Ela não viu quando os médicos a levaram para um hospício. Ela recusou os tapas de sua colega de quarto que berrava querendo saber se estava bela para o baile de Alexandre, O Grande. Ela negou todos os alimentos que lhe ofereceram, o infinito teve de injetá-los nela. Ela não acreditou em cada enfermeiro que a penetrou, deslembrou as palavras que lhe falavam em seus ouvidos.
Ela só acreditava em uma coisa: no “Sim!” que uma voz ainda berrava de tempos em tempos dentro de sua mente. Mas ela ainda não sabia a pergunta certa para ser respondida pelo “Sim!”. A chamaram pelo nome até seus entes o esquecerem. No hospício a chamavam de “A Desolhada”.
Anos, décadas passaram e ela também negou a morte. Riu-se da tentativa derradeira do abismo de toma-la. Não lhe daria este prazer nunca.
Ela infinitou-se à vida.
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